quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

2012 em músicas

 

2012 foi um bom ano pra música. Ao menos para os meus ouvidos. E o resultado disso é o exorbitante número de discos que selecionei aqui, 50 (mais 10 menções honrosas). Pensei em fechar com apenas 20 e fazer uma lista comedida, mas aí eu iria ignorar um vasto número de discos que me serviram de companhia e que de alguma forma mexeram comigo ao longo do ano. E eis o critério de seleção aqui utilizado, simples e essencialmente pessoal: discos que provocaram algum sentimento em mim, seja conforto e tranquilidade, seja incômodo e desconforto, e que atiçaram a minha curiosidade. E o que eu divido com vocês são as sensações que eles me passaram, ou ao menos de 20 deles, além de uma mixtape com as 12 (+1) melhores músicas do ano, algo como um acompanhamento para a leitura.

Enfim, dadas às explicações, eis o meu 2012 em músicas:

 Mixtape: 2012 em 12 (+1) músicas

01 - Rebordosa - Guido
02 - Myth - Beach House
03 - Rosie Oh - Animal Collective
04 - Every Single Day - Fiona Apple
05 - Kill For Love - Chromatics
06 -  Amor de Antigos - Céu
07 -  Pyramids - Frank Ocean
08 -  Oblivion - Grimes
09 -  Yet Again - Grizzly Bear
10 -   Tropicalea Jacta Est - Tom Zé
11 -  The House That Heaven Built - Japandroids
12 - Gayana - Caetano Veloso
13 - ? - ? 


EPs

Amiri - Eta Porra! EP  
Burial - Kindred EP
Daniel Rossen - Silent Hour/ Golden Mile EP
Dawn Richard  Armor On
 We Are Pirates - Kids Pratice EP  

 
Os quase lá (em ordem alfabética)

Ariel Pink's Haunted Graffiti - Mature Themes 
 Azealia Banks - Fantasea Mixtape  
BNegão & Os Seletores de Frequência - Sintoniza Lá  
Bobby Womack - The Bravest Man In The Universe
Cloud Nothings - Attack on Memory
Curumin - Arrocha 
Dan Deacon - America 
Daughn Gibson - All Hell 
Dirty Projectors - Swing Lo Magellan 
Godspeed You! Black Emperor - 'Allelujah! Don't Bend! Ascend!
Grimes - Visions
Hurtmold - Mils Crianças
Jessie Ware - Devotion 
Lestics - História Universal do Esquecimento
Lucas Santtana - O Deus Que Devasta Mas Tambem Cura 
Madrid - Madrid
   Miguel - Kaleidoscope Dream
OQuadro - OQuadro 
Purity Ring - Shrines 
Ricardo Villalobos - Dependant And Happy
Rodrigo Campos - Bahia Fantástica
SpaceGhostPurrp - Mysterious Phonk The Chronicles Of SpaceGhostPurrp
Tame Impala - Lonerism
Sobre | Download
The Shins - Port Of Morrow 
The Vaccines - Come of Age 
The xx - Coexist 
Tulipa Ruiz - Tudo Tanto
Titus Andronicus - Local Business 
Swans - The Seer
Sobre | Download
Vitor Araújo - A/B 
Sobre | Download

(em ordem de preferência)

20 - XXYYXX - XXYYXX

O futuro chegou e com ele a possibilidade de você mesmo fazer a sua própria música, assim como Marcel Everett fez. Em seu quarto, o garoto de dezesseis anos utilizou programas de áudio para recortar, mixar e samplear músicas de distintos estilos para criar uma obra atmosférica, de difícil definição, dotada de ecos da música eletrônica contemporânea. Cada particularidade sonora é explorada em câmera lenta, vozes e instrumentos se fundem em uma massa única e o som produzido por Marcel causa uma sensação de relaxamento, de suspensão. Soa como a música do futuro. Ou já seria a música do presente?

Escute 'About you'

 
19 - Macaco Bong - This is Rolê  

Despretensiosas e essencialmente instrumentais, as músicas do This is Rolê são pedradas assertivas que primam pelo busca de melodias cadenciadas em meio a uma sonoridade enérgica e tipicamente urbana. Percorrendo distintos caminhos que passeiam ora pelo Sludge Metal e o Stoner Rock, ora pelo Post-Rock e o Jazz, e com a aglutinação de sons acontecendo em cada faixa, o Macaco Bong produz um material harmônico e de fácil assimilação, mesmo com o peso das distorções e dos intensos riffs, e que ainda é, por vezes, dançante.
 
Escute 'Summer seeds' 
  
 18 - Céu - Caravana Sereia Bloom
O que salta os olhos aqui é que o disco condiz perfeitamente com a sua proposta, a de ser, como a própria cantora define, um ‘Road Album’. Ao escutá-lo, conseguimos imaginar a cantora viajando de carro pelos mais longínquos lugares do Brasil, absorvendo o que escuta e ver e somando com as referências já existentes em sua bagagem cultural. E há aqui o encontro do brega romântico dos anos 70/80 com a música latina, da psicodelia com o reggae, moldados de tal forma que origina um novo estilo, multidiversificado, com um pé no retrô e outro no que há de mais atual. Céu sabe como lidar com estado das coisas no decorrer do tempo, algo que poucos artistas contemporâneos a ela  possui o tato para perceber.

Escute 'Retrovisor'

17 - Animal Collective - Centipede Hz

Depois do seu maior êxito criativo, Merriweather Post Pavilion, o Animal Collective decide recomeçar. Mas não do zero. O que uma das bandas mais inventivas da atualidade – ou seria ‘a mais’? – realiza em seu retorno de um hiato de três anos é a procura por novos caminhos ainda não percorridos e a exploração das referências já trabalhadas em outrora. E o resultado é hermético, caótico e incerto, ainda mais do que no deliciosamente indigesto Stramberry Jam (disco que antecede o Merriweather). Contudo, os devaneios e excessos só contribuem para que Centipede Hz seja o disco mais libertário em ideias de Panda Bear, Avey Tare e companhia, e sinaliza, a partir desse recomeço, um futuro com outros êxitos criativos tão grandiosos quanto o Merriweather Post Pavilion, ou mesmo quanto qualquer outro disco da discografia da grupo.


16 - Clams Casino - Instrumental Mixtape 2

Instrumental Mixtape 2 pode um  estudo sobre as possibilidades sonoras do hip hop contemporâneo.  Ou a dissecação de um produtor do gênero, da sua arte e ofício, e a posterior interpretação e releitura do seu trabalho. Ou, ainda, um experimento que procura explorar a aglutinação de sons, texturas, efeitos e ruídos oriundos de músicas com versos e rimas.  A obra do produtor Mike Volpe, o Clams Casino, que coleta distintas bases instrumentais criadas por ele para outros artistas, se revela um projeto de referência para que outros músicos e produtores possam explorar as mais distintas sonoridades e abrir discussões sobre os novos rumos que música pode seguir.

Escute 'Wassup'
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 15 - Grizzly Bear - Shields

Eis uma banda que prima pela estética musical, para a beleza sonora extraída de um simples dedilhar de um violão ou de uma delicada harmonia vocal. Shields é a continuação aprimorada de um trabalho que aponta desde a sua estreia em 2004, com o álbum Horn of Plenty, sendo mais intenso, menos arriscado, sem deixar de ser inventivo, mas ainda explorando incessantemente propostas musicais que os ajudem a percorrer caminhos que o levem ao esmero das suas canções.

Escute 'Gun-shy'
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 14 - Sobre a Máquina - Sobre a Máquina

Ruídos abstratos, desordem musicais, barulhos urbanos, ausência de qualquer de melodia acessível. Sobre a Máquina não faz música para o ouvido comum, mas sim para o ouvido de quem se dispõe a experimentar novos sons, de quem procura ser incomodado por frequências ‘tortas’ e procura algo que o deixe inquieto. E não é nada pretensioso isso.  Quem se aventurar a conhecer Sobre a Máquina, o disco, vai descobrir um mundo de invencionismos sonoros, onde o trato com a músicas se apresenta com um esmero cuidado, com o uso de instrumentos processados, reverberações metálicas, distorções e dissonâncias provocando as mais variadas sensações, incomodando e desafiando o ouvinte.

Escute 'Oito'

 13 - Kendrick Lamar - Good Kid, M.A.A.D City

Existem duas histórias sendo contadas aqui. Uma está presente nas letras, onde temos um recorte da vida de Kendrick Lamar, dos 17 anos até os dias de hoje; a outra se encontra na proposta sonora, que revisita todo o hip-hop tido como tradicional oriundos dos anos 90. Mas até aí, nada de novo. O que engrandece e torna memorável o trabalho do rapper é a forma como ele atualiza a velha tradição e traz novos ares para uma formúla que nunca parece cansada de reformulações.



12 - Caetano Veloso - Abraçaço


‘Cê’ é um disco urgente, o retrato de um artista inquietante em procura de renovação da sua arte; ‘Zii e Zie’ é a afirmação da nova identidade com o olhar saudosista e reconciliador para o passado; agora, no encerramento da trilogia, ‘Abraçaço’ surge tão inquietante quanto o seu criador, pois é aqui que Caetano Veloso experimenta com alguns estilos tipicamente brasileiros, arrisca-se acertadamente ao revisitar formulas que parecia datada e imprime a certeza de que os seus próximos trabalhos irão manter a coragem e inventividade que em toda a sua carreira ele sempre demonstrou.

Escute 'A Bossa Nova é Foda'
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 11 - Guido - Triste Cru


Sim, soa como mais uma cria do Los Hermanos. E sim, o disco soa monotemático na maioria das vezes, pois o ‘amor’ e as suas consequências são temas recorrentes em todas as músicas. Mas em 2012, poucos trabalhos soaram tão intensos quando a estreia de Guido, seja nas cortantes letras, declamadas por um vocal que parece carregar todos os sentimentos impressos nos versos, seja nas melodias que fluem dos instrumentos e criam, em compasso com as letras e o vocal, uma curiosa leveza e espontaneidade que emana em todas as faixas.


10 - Fiona Apple -  The Idler Wheel Is Wiser Than the Driver of the Screw and Whipping Cords Will Serve You More Than Ropes Will Ever Do

É tudo tão íntimo, tão pessoal, que o nosso contato com as feridas expostas de Fiona Apple faz com que nos sentimos como voyeur de alguém que se desnuda sem perceber que está sendo observada. Mas as suas confissões são intencionais, abertas ao público, e é com ‘prazer' que acompanhamos as narrações de suas amarguras, dores, erros, onde a instrumentação detalhista e peculiar somada com a interpretação intensa da artista dá a dramaticidade certa  para os lamentos e anseios presentes nas letras. Em suma, Fiona Apple sofre e transforma a sua dor em música, arte. A nós, resta-nos apreciar a sua obra com a certeza de que se um dia nos encontrarmos com o coração aos pedaços, acharemos o conforto nos versos de alguém que já sofreu o mesmo e tem algo para nos ensinar. 

Escute 'Werewolf' 

09 - Wild Nothing - Nocturne
 
É um disco simples, sem grandes atributos e desprovido de qualquer complexidade, seja nas letras ou no trato dado ao instrumental. Mas, mesmo assim, Nocturne é grandioso. Com os dois pés nos anos 80, mas atualizado um som que parecia datado até pra época, Wild Nothing, ou, mais especificadamente, Jack Tatum - único membro fixo da banda - cria onze canções tão marcantes quanto prazerosas, cada qual com um detalhe que lhe é peculiar, mas todas igualmente encantadoras, nostálgicas. Nenhum disco de 2012 soa tão aprazível quanto Nocturne e se você procura uma definição para ‘pop sonhador’ irá encontrar nas músicas que compõe essa bonita obra. 


08 - Japandroids - Celebration Rock

É barulhento, é dançante, é despretensioso, é contagiante, é emocionante, é enérgico, é revivalista sem ser pasteurizado, é empolgante, é divertido, é maturo e ao mesmo tempo jovial, é intenso, é compacto e mesmo assim diz tudo o que tem  pra dizer, é intenso e potente, mas também simples e pop. Em suma, é como o ROCK deveria ser.


07 - Death Grips

A massa sonora de ambos os discos é caótica, embora exista uma tentativa de soar comercial no primeiro disco. Os versos e as rimas são sujos. E a postura, anárquica. Mas, em 2012, nenhum a grupo ou artista lançou trabalhos tão barulhento e ousado quanto o Death Grips. Do embate com a gravadora ao colocar no segundo disco um pênis ereto na capa e disponibilizar o álbum pra download sem os consentimentos do selo a esquizofrenia das músicas que por vezes, sem avisar, oprime quem as escutam, demonstram que as experiências proporcionadas pelo coletivo funcionam como forma de incomodar os ouvintes e instigá-los a enfrentar uma sonoridade tão inventiva e inquietante como poucos na atualidade.

(clique nos títulos dos discos para baixá-los)

06 - Chromatics - Kill For Love


Etéreo. Climático. Denso. Camadas de filtros e usos extensivos de sintetizadores são usadas em Kill For Love para criar uma atmosfera que, mesmo imersa em artificialidade, reproduz um sublime estado de conforto, acolhimento, uma sensação de que o tempo se dissolve em câmera lenta. Essa é a força que o disco do Chromatics possui, tão particular quanto hipnótico, harmônica e melancólica, um simulacro alucinógeno que permitirá a quem estiver disposto a mergulhar em nostalgia e a visitar as paisagens sonoras que Kill For Love é capaz de produzir.

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05 - Jair Naves - E Você Se Sente Numa Cela Escura, Planejando A Sua Fuga, Cavando O Chão Com As Próprias Unhas
  

A sua antiga e extinta banda, Ludovic, prezava pela crueza sonora e dos versos, onde a angústia e a postura agressiva serviam para enaltecer o desconforto que as letras desesperançosas  ofegam o ouvinte. Agora, em seu primeiro disco solo, Jair Naves aponta para uma distinta sonoridade bem mais aprazível e com certo senso de melodia, embora as letras continuem amarguradas, ainda mais comovente e confessional, mas, por vezes, surpreendentemente otimista. Tais mudanças refletem o artista que Jair Naves é, moldando a sua arte à medida que amadurece, sente a necessidade de compartilhar as suas dores e pensamentos sobre aquilo que observa com quem se dispõe a oferecer um ombro amigo em troca de aprendizados de alguém tão vívido. 
 
Escute 'Maria Lúcia, Santa Cecília e eu'
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04 - Flying Lotus - Until The Quiet Comes

O que parece interessar aqui são as nuances das canções e não a busca por estrofes, versos e refrãos. É dos detalhes quase perceptíveis de uma música que o produtor Steven Ellison – vulgo Flying Lotus - persegue para explorar as mais variadas possibilidades sonoras, construindo por meio de cacofonias e aliterações, misturando o orgânico com o sintético, um mundo tão real quanto onírico de sensações. 

 Escute 'Tiny Tortures'

03 - Beach House - Bloom

Em quatro discos, Victoria LeGrand e Alex Scally se apropriaram do dream pop, remodelaram as doces melodias do gênero e transformaram em algo que só é particular a eles. E se nos três primeiros discos a calmaria etérea e a sutileza musical viraram a marca sonora do duo, em Bloom os ecos de antes aparecem imersos em uma sonoridade massiva carregada de intensidade que, aliado a com uma busca por melodias ainda mais pop, demonstra que o Beach House não se interessa em mudar, mas em transforma-se para melhor aprimorar um estilo que é apenas seu para criar obras que primam pela beleza sensorial. 

Escute 'Lazuli'

02 - Tom Zé - Tropicália Lixo Lógico

A muito que dissecar na obra de Tom Zé, o que pode ser um trabalho infindável tendo em vista o mundaréu de significados e significativos presentes nas letras e nos sons. Mas seria um exercício formidável mesmo se centrássemos em alguns pontos chaves da obra: as pesquisas – filosóficas e históricas - realizadas por Tom Zé para entender o surgimento do movimento tropicalista no Brasil; a junção de duas gerações separadas por 40 anos de música – nas letras, os tropicalistas, nas vozes, os novos artistas (Emicida, Mallu Magalhães, Rodrigo Amarante) -; a aglutinação de ritmos brasileiros, com estrangeirismo e eruditismo, tão caro para aquela geração revolucionaria dos anos 60; o efeito causado pelos cortes abruptos nos fim das canções; o olhar curioso do artista para o ontem e o hoje e para a sua posição nisso tudo. É um disco que borbulha de ideias, realizado pelo artista mais inquietante e ousado da música brasileira, que talvez tenha vindo um pouco tarde demais, mas ainda em tempo de causar nem que seja uma pequena revolução. 


01 - Frank Ocean - channel ORANGE

Frank Ocean foi o artista de 2012. A sua música, ou melhor, o seu talento se mostrou mais impactante do que qualquer nota sensacionalista sobre a revelação da sua bissexualidade e as acusações de que tal anúncio seria um golpe de marketing para alavancar o seu sucesso. Dono um R&b denso e de letras confessionais, que revelam minuciosamente os seus sentimentos, Frank Ocean se tornou um artista maturo depois da estreia em um inconstante EP, que mesmo exibindo traços do talentoso crooner que ele é hoje, não nos preparava para tamanha maturidade vinda em tão pouquíssimo tempo. Channel Orange será um registro que ficará marcado no tempo e, com o que vemos aqui, é quase certo que Frank Ocean irá compor outras obras atemporais tão grandiosas quanto essa.   


 


2 comentários:

  1. Hm, Tiny Tortures, do Flying Lotus me fez lembrar um pouco uma música chamada Teeth, do Shlohmo.

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